“PARTI O MEU CORPO COMO PÃO E REPARTI-O PELOS HOMENS” – O CORPO COMO METÁFORA DO ENCONTRO COM O DIVINO E DOAÇÃO DE SI AO OUTRO EM ETTY HILLESUM

Autores

  • Roberto Almeida da Paz

Palavras-chave:

Microcosmos, diferença, feminino, experiência, corpo.

Resumo

Esther – ou simplesmente Etty Hillesum (1914-1943) – era uma jovem, bela e mui sensual, consciente de seu corpo – de suas formas e libido. Feminina convicta – era igualmente independente e livre em suas escolhas subjetivas . As variegadas relações tecidas com os homens nas quais entabulara, eram vividas em profundidade, mesmo quando – em alguns casos (cf. Han Wegerif) – resultavam em conflitos continuados. – Etty descobre – na medida em que cultiva, aprofunda na sua vereda interior – não haver separação entre ela e Deus, como não há cisão entre corpo e espírito. De fato, corpo e alma são inseparáveis – e em nome desta convicção, que inicialmente lhe transmitiu seu “mestre e amante” Julius Spier, num determinado momento Hillesum rechaça a via de ascese proposta por Spier, e principia mantendo jungidas espiritualidade e sexualidade, corpo e alma, num sinergia e urdidura que ela sente profundamente concorde com sua diferença feminina (Diario 1941-1943, 2002, p. 316-317). Registrará sua convicção de que “corpo e alma são uma só coisa” (cf. Diario 1941-1943, 2002, p. 27). No itinerário espiritual de Etty – na descoberta de si, do seu corpo – percebemos emergir lenta e continuamente a noção de que o ser humano transporta consigo um “microcosmos” – um cosmos infinito em miniatura. Este, por sua vez, conecta-se simultaneamente ao macrocosmos e ao microcosmos. Através das páginas do seu Diário e de suas Cartas, descortina-se o grande mistério de uma “alma” que não perde o contato com a interioridade, com seu corpo, antes, nela, este vai aumentando dia após dia. O contato com sua interioridade e seu corpo amadurece indo buscar ao seu interior o sentido da força vital para ser testemunha da sua beleza radical, não obstante tudo e apesar de tudo. Etty transfigura o seu amor em ágape, oblação gratuita e generosa. Será esse amor vivido até às ultimas entranhas do seu corpo que ela derramará sobre os seus “irmãos” deportados de Westerbock e Auschwitz até o seu último suspiro. De fato, a consciência e a profundidade dessa experiência – Etty deixa consignada na última página de seu Diário (12 de outubro de 1942): “Parti o meu corpo como pão e reparti-o pelos homens”.

Biografia do Autor

Roberto Almeida da Paz

Mestre em teologia na PUC-SP

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Publicado

2017-10-09