“RELICÁRIO DE DANADOS”: NOTA SOBRE A POBREZA E O USO NA POESIA PORTUGUESA CONTEMPORÂNEA

Autores

  • Sérgio Lima

Palavras-chave:

uso, pobreza, negatividade, poesia portuguesa contemporânea.

Resumo

Ao reivindicar uma possível superação das dicotomias que envolvem a noção de consumo, o
pensador Giorgio Agamben recorrerá aos remotos tempos que remontam ao conflito que, no
século XIII, fez arrostar a Cúria Romana e a Ordem dos Franciscanos, em cuja lógica estava
subscrito o princípio da “altíssima pobreza”, ou seja, a “possibilidade de um uso totalmente
desvinculado da esfera do direito”. O impasse apareceria pela primeira vez com o argumento
de João XXII, para quem seria impensável um uso fora da noção de consumo e, por isso, um
uso que não presumisse uma propriedade. O conflito, por tais caminhos, marcaria para
Agamben as origens do capitalismo ocidental. Retomando a imagem que desenha a arché da
“altíssima pobreza”, este trabalho se desenvolve a partir de uma inflexão que busca aproximar
as ideias de pobreza e uso que hoje permeiam alguma tendência da poesia portuguesa. De
modos evidentemente distintos, a poesia de escritores como Manuel de Freitas, Rui Pires
Cabral e José Miguel Silva não só atesta a pobreza de experiência na contemporaneidade, mas
dá – quem sabe – um passo além ou aquém ao replicar que o gesto, em poesia, faz da própria
pobreza uma experiência, uma vez que nestes textos o uso do corpo poético – por si,
inapropriável – aparece como uma terceira via diante das violentas separações que vêm
delineando o nosso curso histórico.

Biografia do Autor

Sérgio Lima

Mestre e doutorando em Estudos Literários (UFMG)

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Publicado

2017-10-09